segunda-feira, 17 de março de 2008

2 - A Epístola de Tiago



Trata-se realmente de uma Epístola?
Tiago começa sua carta com um destinatário e uma saudação (1.1), usa os pronomes pessoais vós e nós ao longo de toda a sua epístola e, com frequência, apela para os leitores, chamando-os de "meus irmãos" ou "meus amados irmãos". Ele não faz uma relação de nomes dos destinatários, não oferece nenhuma informação pessoal sobre eles e deixa de mencionar qualquer detalhe sobre si mesmo. Conclui sua epístola sem uma bênção e as saudações finais.
Esta carta, portanto, não é um documento pessoal, mas uma epístola geral. As epístolas gerais no Novo Testamento (aquelas de Pedro, João e Judas e a Epístola aos Hebreus) e outras cartas - preservadas durante séculos nas areias do Egito, porém recentemente descobertas - têm essa mesma forma literária. Alguns estudiosos desejam fazer uma distinção entre epístola e carta. Afirmam que as cartas apresentam temporalidade, enquanto as epístolas demonstram permanência e universalidade. Outros, porém, consideram os termos como sendo sinónimos.

1. Um tratado
Se usarmos o termo carta ou epístola, temos que descrever o que a palavra significa. Uma carta é equivalente a um tratado ou a um sermão? Em primeiro lugar, portanto, a Epístola de Tiago seria um tratado? Estudiosos mostraram que essa epístola assemelha-se a uma diatribe. A diatribe - discurso marcado pela ironia, sátira e insultos - era comum nos círculos helenísticos. Estudiosos detectaram semelhanças entre a diatribe grega e a Epístola de Tiago quanto ao uso de perguntas retóricas, exemplos tirados da natureza e da história, espirituosidade verbal e o uso de aliteração e assonância, analogias, ditados curtos e citações.
Apesar das semelhanças serem óbvias (ver, por exemplo, a sequência de perguntas curtas e ordens no capítulo 4.1-10), isso não muda o fato de que Tiago não é um grego, e sim um judeu. Tiago é um autor inspirado que apresenta em sua epístola a revelação de Deus. Devido ao conteúdo sagrado de sua carta, o sarcasmo atroz, a ironia e os insultos - características das diatribes helenísticas - não estão presentes. Portanto, concluímos que a Epístola de Tiago não deve ser considerada um tratado no sentido de diatribe. Se a carta não é um tratado, podemos chamá-la de sermão?

2. Um sermão
O apóstolo Paulo instrui a igreja de Colossos para que lesse a carta enviada a ela e que a trocasse pela carta enviada por ele para a igreja de Laodicéia (Cl 4.16) e, em sua primeira epístola à igreja de Tessalônica, ele diz aos crentes: "Conjuro-vos, pelo Senhor, que esta epístola seja lida a todos os irmãos" (1Ts 5.27). Cartas enviadas para as igrejas e para indivíduos eram escritas "para serem lidas em voz alta nas igrejas". Presume-se que a carta de Tiago para "as doze tribos que se encontram na Dispersão" (1.1) tenha sido lida durante os cultos como um sermão de Tiago, o pastor.
A Epístola de Tiago pode ser dividida em duas partes que são quase iguais em extensão: os dois primeiros capítulos são constituídos por 53 versículos, e os três últimos por 55 versículos. Com efeito, as duas partes são dois sermões sucessivos que apresentam temas comuns. Depois da saudação, o primeiro sermão começa e termina com a questão da fé (1.3; 2.26). O segundo sermão começa com a obser¬vação de que todos aqueles que ensinam serão julgados, pois todos nós tropeçamos naquilo que dizemos (3.1-2), e termina com o conselho para converter um pecador de seu caminho errado (5.20). Em resumo, a Epístola de Tiago consiste de dois sermões.
Além disso, os sermões judaicos dos primeiros séculos de nossa era apresentam semelhanças impressionantes com a carta que Tiago escreveu para o rebanho disperso. Esses sermões incluem o uso de diálogo, o método de se dirigir ao público de uma sinagoga, fazendo uso do termo irmãos e os muitos assuntos mencionados na carta de Tiago.
Não se pode ignorar a probabilidade de que Tiago tenha se dirigido ao público de uma sinagoga (2.2) de sua época com o conteúdo do sermão que mais tarde tornou-se sua epístola. Essa epístola traz características de um sermão, mas, por causa do destinatário e da saudação no começo, não é um sermão, mas uma epístola.

Quais São as Características da Epístola?
As características desta carta apresentam-se, principalmente, sob as formas estilística e cultural.

1. Características de estilo
Em primeiro lugar, apesar da epístola estar escrita num grego de bom nível quando comparada com o que há de melhor no Novo Testamento (ou seja, com o grego da Epístola aos Hebreus), seu estilo literário mostra um traço hebraico distinto.
Além disso, a carta mostra-se repleta de imperativos. De acordo com uma contagem, eles aparecem em 44 ocasiões. O uso frequente de imperativos é uma indicação de que o escritor é uma pessoa que fala com autoridade e que exige o respeito dos membros da Igreja. Ao mesmo tempo, ele demonstra uma preocupação pastoral carinhosa por aqueles a quem se dirige.
Em terceiro lugar, o autor comunica sua mensagem de forma eficaz, usando muitos exemplos e comparações tirados da natureza e da vida humana. No primeiro capítulo, por exemplo, ele se refere ao vento e às ondas, ao sol que se levanta e ao calor ardente, à erva e sua flor, ao pai das luzes e à sombra de mudança, ao contemplar-se num espelho e ao refrear da língua. O estilo desta epístola é envolvente: ele chama a atenção e mantém o leitor interessado, pois as imagens nele contidas são naturais.
Por fim, Tiago junta frases e orações por meio da repetição de um verbo ou substantivo. Até mesmo na tradução, essa característica de estilo é evidente. Observe este exemplo tirado do capítulo 1.13-15:
“Ao ser tentado, ninguém deve dizer: "Deus está me tentan¬do". Porque Deus não pode ser tentado pelo mal e nem ele tenta ninguém; porém, cada um é tentado quando, por seu próprio desejo perverso, é atraído e seduzido. Então, depois do desejo haver concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, uma vez completamente amadurecido, dá à luz a morte”.

2. Características culturais
Tiago e seus leitores estão completamente familiarizados com os nomes que são tirados da história do Antigo Testamento: Abraão, Isaque, Raabe, Jó e Elias. A inclusão desses nomes é uma indicação preliminar de que Tiago tem como destinatários da carta leitores judaico-cristãos.
Ao longo de sua epístola, Tiago faz alusão às três partes do cânon do Antigo Testamento - a Lei, os Profetas e a literatura de Sabedoria. Ao voltar a atenção de seus leitores para a lei como um todo, ele os exorta a obedecer a ela (2.10). Além disso, no que diz respeito ao exercício da paciência diante do sofrimento, o autor lhes diz que devem tomar os profetas como exemplo (5.10) e, ao lembrá-los da per¬severança de Jó, faz alusão à literatura de Sabedoria (5.11).
Essas referências indicam que o Antigo Testamento era um livro que o autor e os leitores conheciam bem. Tiago e aqueles que receberam sua carta pertenciam às 12 tribos (1.1). Eram o povo que Deus havia escolhido para ser "herdeiro do reino" (2.5). Eram o povo que chamava Abraão de pai (2.21).
Tiago também comenta sobre as "primeiras e as últimas chuvas" (5.7). Essa é uma descrição que se encaixa no clima de Israel, e não no clima de outros países ao redor do Mar Mediterrâneo. O autor, portanto, revela que vive em Israel e que também foi de lá que se originaram seus leitores.

Quem Foram os Primeiros Leitores?
Os leitores eram judeus, tendo em vista que a carta é claramente destinada "às doze tribos que se encontram na Dispersão" (1.1). O termo doze tribos é uma referência bíblica a Israel (Êx 24.4; Mt 19.28; Lc 22.30; At 26.7; Ap 21.12) que deve ser entendida de forma figurativa, e não literalmente. Tiago se dirige a representantes dessas 12 tribos que, pela obra de Cristo, são agora o novo Israel.
De fato, Tiago chama seus leitores de irmãos que são crentes em "nosso Senhor Jesus Cristo" (2.1). São cristãos judeus que vivem "na Dispersão" (1.1), mas que ainda assim sabem que são o povo de Deus. Em sua epístola, Tiago não oferece nenhuma evidência de que está se dirigindo a cristãos gentios. Os leitores dessa epístola são exclusivamente judeus, com exceção dos opressores ricos reprovados por Tiago (5.1-6).
Os destinatários da epístola são judeus: eles se encontram para adorar numa "reunião" - uma tradução da palavra sinagoga (2.2); são chamados de "infiéis" (4.4) - o original grego tem o termo mulheres adúlteras (4.4), que é, evidentemente, uma figura do Antigo Tes¬tamento que mostra o contrato matrimonial que Deus (como marido) tem com Israel (sua esposa). Eles compreendem o termo Sabaoth, que a Bíblia Revista e Atualizada traduz como "Senhor dos Exércitos" (5.4), e chamam os presbíteros da igreja para que visitem e orem com os doentes (5.14). A Igreja, porém, não tem bispos. A expressão bispo (ver At 20.28; Fp 1.1; l Tm 3.2; Tt 1.7; IPe 2.25) tem sua origem na parte da Igreja cristã cuja membresia é de origem gentia. O termo presbítero, por outro lado, lembra os líderes em Israel que eram chamados de presbíteros e, portanto, reflete a influência judaica.
Esses judeus são, portanto, cristãos. O escritor se apresenta como um "servo de Deus e do Senhor Jesus Cristo" (1.1). Além de se dirigir aos cristãos que crêem em Jesus Cristo (2.1), ele escreve que "segundo seu querer ele nos [o autor e os leitores] gerou pela palavra da verdade" (1.18). Os leitores pertencem a Jesus, cujo bom nome é blasfemado (2.7).
Esses cristãos judeus foram dispersos entre as nações. Apesar da expressão Dispersão aparecer apenas em João 7.35, Tiago 1.1 e 1 Pedro l. l, ela encontra um paralelo verbal dentro da narrativa escrita da perseguição da Igreja em Jerusalém. Depois da morte de Este¬vão, a igreja de Jerusalém foi dispersa pela Judéia, Samaria (At 8.1) e até mesmo em lugares distantes como a Fenícia, Chipre e Antioquia (At 11.19). Por meio de Atos, portanto, sabemos que os cristãos dis¬persos eram judeus que haviam sido expulsos de Jerusalém.
Se tomarmos como pressuposto que Tiago escreveu sua epístola para os cristãos judeus que foram perseguidos depois da morte de Estevão, então, conclui-se que essa epístola é do início do século I. Além disso, essas pessoas eram cristãos judeus cuja língua-mãe era o grego e que encontraram refúgio em países de fala grega ao norte de Israel: Fenícia, Chipre e Síria.
Tiago escreveu uma carta pastoral para esses crentes dispersos que, antes da perseguição, pertenciam à igreja de Jerusalém. Sabia que estavam vivendo em pobreza, enquanto eram empregados por abastados donos de terras que os exploravam. Alguns deles eram comerciantes, mas todos passavam por dificuldades. Tiago ministrou às suas necessidades ao escrever-lhes uma carta pastoral.

Quem Escreveu esta Epístola?
A saudação introdutória informa ao leitor que Tiago é um "servo de Deus e do Senhor Jesus Cristo" (1.1). Essa saudação, em si, oferece poucas informações sobre a identidade do autor. Quem é ele? O que o Novo Testamento diz sobre Tiago?

1. Evidências do Novo Testamento
O Nome
O Novo Testamento menciona vários homens chamados Tiago. São eles o filho de Zebedeu (Mt 10.2 e paralelos; At 1.13; 12.2), o filho de Alfeu (Mt 10.3 e paralelos; At 1.13), Tiago, o menor (Mc 15.40), o pai de Judas (não o Iscariotes [Lc 6.16; At 1.13]), o irmão de Judas (Jd 1) e o meio-irmão de Jesus, que se tornou o líder da igreja de Jerusalém (Mt 13.55; Mc 6.3; At 12.17; 15.13; 21.18; ICo 15.7; Gl 1.19; 2.9,12).
Se o irmão de Judas (Jd 1) e Tiago, o meio-irmão de Jesus, são a mesma pessoa, o número cai para cinco homens com esse nome.

a. "Tiago, filho de Zebedeu". Tiago e seu irmão João receberam o nome de Boanerges, que significa "filhos do trovão" (Mc 3.17). Além da lista de apóstolos nos evangelhos e em Atos, seu nome aparece em Atos 12.2, onde Lucas informa ao leitor que o rei Herodes Agripa I havia mandado "prender alguns da igreja para os maltratar, fazendo passar ao fio da espada a Tiago, irmão de João". Isso ocorreu no ano 44 d.C., durante a Festa dos Pães Asmos. Se Tiago, filho de Zebedeu, tivesse escrito a Epístola de Tiago, seria de se esperar mais informações internas e externas. Ao invés de chamar-se de "servo de Deus e do Senhor Jesus Cristo" ele teria usado o termo apóstolo de Jesus Cristo, e a igreja primitiva teria recebido e guardado com cuidado a epístola como um escrito apostólico.

b. "Tiago, filho de Alfeu". Conhecemos esse apóstolo apenas por meio das listas de apóstolos dos evangelhos e Atos. O Novo Testamento não diz nada sobre a vida e as obras dessa pessoa. Se esse apóstolo tivesse escrito a epístola, ele teria oferecido mais identificações. Além disso, a igreja teria mantido viva essa memória se essa epístola tivesse sido escrita por um apóstolo.

c. "Tiago, o menor". De acordo com o Evangelho de Marcos (15.40), Tiago, seu irmão José e sua irmã Salomé eram filhos de Maria. Tiago é identificado como "o menor" - uma referência à sua idade ou estatura. Nada sabemos sobre a vida de Tiago, o menor. Supõe-se que sua mãe fosse a esposa de Clopas (Jo 19.25).

d. "Tiago, pai de Judas". Não se sabe nada sobre essa determinada pessoa, a não ser que ele era pai do apóstolo Judas (não o Iscariotes).

e. "Tiago, [meio] irmão do Senhor". Os escritores dos evangelhos falam dele como sendo um dos filhos de Maria, a mãe de Jesus (Mt 13.55; Mc 6.3). Durante o ministério de Jesus aqui na terra, esse Tiago e seus irmãos não criam em Jesus (Jo 7.5). Tiago tornou-se um crente quando Jesus apareceu para ele depois de sua ressurreição (lCo 15.7). Depois da ascensão de Jesus, ele estava presente com seus irmãos e os apóstolos no lugar chamado de cenáculo (At 1.14). Ele assumiu a liderança da igreja de Jerusalém depois que Pedro foi libertado da prisão (At 12.17), falou com autoridade durante a assembleia em Jerusalém (At 15.13), foi reconhecido como o líder da igreja (Gl 1.19; 2.9,12) e encontrou-se com Paulo para ouvir seu relato sobre as missões no mundo gentio (At 21.18). A tradição ensina que foi esse líder estimado e influente que escreveu a epístola.

As objeções à tradição de que foi Tiago, irmão de Jesus, quem escreveu a epístola apresentam-se na forma dos seguintes argumentos:
a. Um galileu cuja língua-mãe era o aramaico não poderia ter redigido uma carta em grego culto. Essa objeção, porém, não é muito forte, tendo em vista a profunda influência grega na Galiléia. Não se sabe da habilidade linguística de Tiago, mas não é remota a possibilidade de que ele fosse bilíngue. Deve-se levar em conta a questão da educação, uma vez que a Galiléia era uma região com muitas cidades gregas e população não-judaica e, por haver amplas evidências do uso de grego por judeus de toda a Palestina, não há razão para supor que Tiago não pudesse falar grego fluentemente. Nem mesmo a questão da educação é convincente: considere, por exemplo, que um sapateiro sem instrução chamado John Bunyan escreveu O Peregrino, que é considerado uma obra clássica. A objeção de que Tiago não poderia haver redigido a carta parece não ter fundamento.
b. Tiago chama-se de servo, e não de irmão de Jesus. Se ele era líder da igreja de Jerusalém, poderia ter indicado essa posição na saudação introdutória. Porém, em suas cartas, os outros escritores de epístolas do Novo Testamento, com frequência, omitiam referências a si mesmos e ao seu cargo. Além disso, Tiago considerava seu relacionamento com Jesus não fisicamente, como seu irmão, mas espiritualmente, como seu servo. Ao longo da epístola, a autoridade da po¬sição do autor dentro da igreja é inconfundível e inegável. Conhecido pelos leitores de seu documento, Tiago não se sente compelido a se identificar como líder da igreja de Jerusalém.

1. Linguagem
Se partirmos do pressuposto de que Tiago, líder da igreja de Jerusalém, é o autor da epístola, devemos examinar seu discurso durante a assembleia realizada em Jerusalém e a carta que ele redigiu nessa ocasião (At 15.13-29). Por exemplo, ele chama Pedro de Simão (em grego, At 15.14), um nome que só aparece novamente em 2 Pedro 1.1. A partir disso, imaginamos que as verdadeiras palavras daquele que está falando são registradas em sua forma original ou numa tradução; torna-se, portanto, interessante saber se há qualquer semelhança entre a linguagem da epístola e aquela do discurso que se diz ter sido realizado por Tiago e da circular [carta] contendo o decreto, que provavelmente foi elaborado por ele.
Além do mais, encontramos semelhanças quando comparamos a escolha de palavras e a estrutura das frases (conforme relatado por Lucas em Atos) com a Epístola de Tiago. Tiago começa seu discurso com o tratamento familiar irmãos, uma expressão que usa com frequência em sua epístola. Observe as seguintes palavras e frases que até mesmo depois de traduzidas mostram-se parecidas:
"Saudações" (At 15.23; Tg 1.1).
"Irmãos, atentai nas minhas palavras" (At 15.13) e "Ouvi, meus amados irmãos" (Tg 2.5).
"Para que os demais homens busquem o Senhor, e todos os gentios sobre os quais tem sido invocado o seu nome" (At 15.17) e "Não são eles que estão difamando o nome sublime daquele a quem vocês pertencem?" (Tg 2.7).
Apesar de não podermos estar absolutamente certos sobre a autoria da epístola, as evidências internas parecem apontar para Tiago, o meio-irmão de Jesus.

2. Evidência externa
Eusébio, historiador da igreja no século IV, cita Hergésipo quando relata que Tiago "costumava entrar sozinho no templo e podia ser encontrado ajoelhado orando por perdão para o povo, de modo que seus joelhos tornaram-se ásperos como os de um camelo, devido à sua cons¬tante adoração a Deus". Como líder da igreja de Jerusalém, Tiago havia conquistado o respeito tanto dos cristãos como dos judeus.
Ainda assim, esse homem devoto, conhecido como Tiago, o Justo, teve uma morte violenta, que é descrita pelo historiador judeu Josefo. Depois que o governador Festo (At 24.27-26.32) faleceu, em 62 d.C., o imperador Nero enviou Albino à Judéia como seu sucessor. Mas, antes que Albino chegasse, um sumo sacerdote chamado Anano, que era jovem e inexperiente, convocou os juizes do Sinédrio. Acusou Tiago, o irmão de Jesus, e outros, de quebrar a lei. Tiago recebeu a sentença de morte por apedrejamento. Tiago, porém, encontrou a morte nas mãos dos sacerdotes, que o lançaram do telhado do templo. Ele sobreviveu à queda, mas os sacerdotes começaram a apedrejá-lo até que um lavador de roupas o espancou até à morte com um bastão.

Qual é a Mensagem Teológica de Tiago?
A Epístola de Tiago parece ser uma coletânea de ditados e pensamentos colocados juntos sem grande formalidade. Difere das epístoIas escritas por Paulo, nas quais ele primeiro desenvolve uma questão doutrinária - como, por exemplo, a cristologia, em Colossenses - e depois conclui com uma seção dedicada à aplicação prática. Tiago, pelo contrário, apresenta uma série de exortações e diversas admoestações que refletem uma ênfase ética, e não doutrinária. Apesar dessas exortações estarem informalmente ligadas, Tiago mostra progresso e desenvolvimento em sua apresentação.
É típico de Tiago introduzir um assunto de forma resumida e sobre o qual ele argumenta mais tarde. Alguns desses assuntos incluem a fé, as provações, a sabedoria (1.2-5), o controle da língua e da ira e a submissão a Deus (1.19,20). Ele retorna a alguns tópicos para discuti-los de maneira mais completa: as provações e tentações (1.12-15); a obediência à lei pela fé (1.22-2.26); o controle sobre a língua (3.1-12); a sabedoria terrena e a celestial; o viver em harmonia com a vontade de Deus (4) e o exercício da paciência por meio da oração (5).
Pelo fato de Tiago muitas vezes voltar a discutir assuntos mencionados anteriormente, não se pode separar sua epístola pela divisão de tópicos. Em termos de proporção, tratar cada tópico separadamente tornaria essa introdução demasiadamente longa.
Tiago parece dar a impressão de que está familiarizado com o evangelho oral de Jesus, mas não com os livros do Novo Testamento. Não é possível demonstrar uma dependência literária de nosso Evangelho de Mateus (e nem mesmo em Lucas ou João). Se estivesse familiarizado com os relatos escritos do evangelho e com as epístolas, Tiago teria um enfoque mais teológico do que ético em sua epístola. É verdade que ele apresenta uma teologia, mas ela fica implícita, e não explícita. Tiago se baseia na pregação de Jesus, discute a questão da fé e das obras de maneira independente em relação aos ensinamentos de Paulo e escreve sobre a submissão a Deus de forma mais simples do que aquela apresentada por Pedro em suas epístolas.
Em sua epístola, Tiago se harmoniza com a tônica dos ensinamentos de Jesus registrados nos evangelhos. É notável a semelhança existente entre o Sermão do Monte (Mt 5.3-7.27; Lc 6.20-49) e versículos, orações, frases e palavras contidas na carta de Tiago. Eis alguns versículos que ilustram essa afirmação:

Mateus 5.7 — Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia.
Tiago 2.13 — Porque o juízo será sem misericórdia sobre aquele que não fez misericórdia;
Mateus 5.19 — Qualquer, pois, que violar um destes mandamentos, por menor que seja, e assim ensinar aos homens, será chamado o menor no reino dos céus;
Tiago 2.10 — Porque qualquer que guardar toda a lei, e tropeçar em um só ponto, tornou-se culpado de todos.
Mateus 6.19 — Não acumuleis para vós outros tesouros sobre a terra, onde a traça e a ferrugem corroem...
Tiago 5.2-3 — As vossas riquezas estão corruptas, e as vossas roupagens, comidas de traça; 3 o vosso ouro e a vossa prata foram gastos de ferrugens, e a sua ferrugem há de ser por testemunho contra vós mesmos e há de devorar, como fogo, as vossas carnes. Tesouros acumulastes nos últimos dias.

Do ponto de vista literário, os estudiosos geralmente reconhecem que Tiago não está citando, mas sim fazendo alusão aos evangelhos sinóticos. A escolha das palavras, a sintaxe e a estrutura das frases são diferente, de modo que se pode afirmar com segurança que Tiago se baseia na palavra falada e passa adiante alusões ao evangelho escrito. Tendo por base essas numerosas alusões ao ensinamento de Jesus, podemos até dizer que Tiago tinha ouvido Jesus pregar em muitas ocasiões e, portanto, estava familiarizado com seus ensinamentos. Juntamente com "testemunhas oculares e ministros da palavra" (Lc 1.2), Tiago participou no recebimento e na transmissão da mensagem de Jesus.
Se podemos detectar ensinamentos de primeira mão de Jesus na Epístola de Tiago, seria possível formular uma Cristologia? A resposta é afirmativa.

1. Cristologia
A Epístola de Tiago não faz referência à vida, sofrimento, morte e ressurreição de Jesus. Apesar da doutrina da ressurreição ser o substrato dos ensinamentos apostólicos e o tema básico do livro de Atos, em sua epístola, Tiago não dá nenhuma atenção a esse acontecimento redentor. Ele está interessado em proclamar o evangelho de Cristo não tanto em termos de sua pessoa, mas em termos práticos e com aplicações éticas de seus ensinamentos.
A epístola contém apenas duas referências diretas a Jesus Cristo. A primeira encontra-se no remetente: "Tiago, um servo de Deus e do Senhor Jesus Cristo" (1.1). A segunda encontra-se na discussão da fé, onde Tiago fala sobre a fé dos leitores em "nosso Senhor Jesus Cristo" (2.1).
Além de incluir esses testemunhos cristológicos diretos, Tiago se refere indiretamente a Jesus ao usar o termo Senhor 11 vezes. Porém, apresso-me em mostrar que, no caso de algumas dessas referências, esse termo é equivalente ao nome de Deus (3.9; 5.4,10,11).
Quando Tiago chama Jesus de "Senhor", ele deseja que seus leitores pensem na ascensão de Cristo. O nome de Deus e de Jesus são paralelos entre si no remetente (1.1); a intenção é enfatizar que o Senhor exaltado é divino. Além do mais, Tiago atribui atos divinos a Jesus: o perdão de pecados (5.15), a cura dos enfermos (5.14,15) e sua posição como Juiz que está às portas (5.9).
Tiago faz, ainda, uma outra alusão a Jesus. Ele diz aos leitores que os ricos são aqueles que "difamam o nome sublime daquele a quem vocês pertencem" (2.7). Esse bom nome pertence a "nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor da glória" (2.1). Observe que Tiago descreve o Senhor como sendo "o Senhor da glória" (do grego). Esse termo faz o leitor lembrar-se da glória de Deus que encheu o tabernáculo no deserto (ver Êx 40.35) e assemelha-se à descrição de Jesus dada por João no prólogo de seu evangelho. João afirma que: "O Verbo se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos sua glória, glória do unigénito do Pai" (Jo 1. 14). A expressão glória indica que Jesus havia cumprido as promessas do Antigo Testamento de que o próprio Deus viria habitar no meio de seu povo. Em Jesus Cristo, Deus revelou sua glória.
E, finalmente, a igreja primitiva entendia a frase nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor da glória, como significando que Jesus havia ascendido aos céus, onde reina com Deus em glória celestial.
Nessa epístola, Tiago revela sua teologia não de maneira direta, mas indiretamente e, portanto, parece mostrar um estágio primitivo do desenvolvimento doutrinário da igreja cristã. Se partirmos do pressu¬posto de que na primeira parte do século l a igreja ainda não havia desenvolvido plenamente a doutrina de Cristo, podemos concluir que a carta, aparentemente, reflete um período inicial na história da igreja.

2. Oração
Tiago que, de acordo com relatos, gastava muito tempo em oração, familiariza seus leitores com esse assunto em pelo menos três partes de sua epístola. Na parte introdutória de sua carta, ele os exorta a pedir sabedoria a Deus (1.5-7). Quando ele os repreende por seu pecado de discutir e brigar, mostra que eles não receberam nada de Deus, porque pediram bens que desejavam usar para seus prazeres pessoais (4.2,3). E se há enfermidade, ou se foi cometido algum pecado, Tiago aconselha seus leitores a fazerem orações para que o enfer¬mo seja curado e o pecado seja perdoado (5.14-16).
Nessas três passagens, Tiago instrui seus leitores dizendo que a oração autêntica deve basear-se na confiança e na fé em Deus. Deus só responde às orações quando o crente pede com fé. Em resposta ao pedido do crente, Deus concederá generosamente a dádiva da sabedoria, irá ao encontro de suas necessidades materiais e dará a cura aos enfermos. A oração daquele que é justo diante de Deus "é poderosa e eficaz" (5.16). O exemplo dado é o de Elias, cujas orações influenciaram o curso da natureza (5.17,18).
Indiretamente, Tiago ainda toca no assunto da oração em outras passagens. Oração também é louvor. Tiago escreve que "com ela bendizemos ao Senhor e Pai" (3.9). A oração é aproximar-se de Deus (4.8) e humilhar-se perante o Senhor (4.10).
A semelhança entre as palavras de Jesus e a Epístola de Tiago sobre a questão da oração é inquestionável. Jesus ensina que a oração baseada na fé é capaz de mover montanhas (Mt 17.20; 21.21; Lc 17.6). Ele diz: "E tudo quanto pedirdes em oração, crendo, recebereis" (Mt 21.22). Outros escritores do Novo Testamento, entre eles o autor de Hebreus, enfatizam essa mesma verdade. Paulo se expressa de modo um tanto direto: "Tudo o que não provém de fé é pecado" (Rm 14.23).

3. A Fé
Um dos primeiros assuntos que Tiago apresenta em sua epístola é a fé: "Vocês sabem que a provação da sua fé desenvolve perseverança" (1.3). E quando uma pessoa se aproxima de Deus em oração, deve pedir "e não duvidar" (1.6).
Tiago desenvolve a questão da fé especialmente no segundo capítulo de sua carta. No original grego, esse substantivo aparece predominantemente no capítulo 2, ou seja, das 16 vezes em que é usado em toda a epístola, 13 delas encontram-se no segundo capítulo. Além disso, nesse capítulo ocorre o uso do verbo crer em três ocasiões (2.19 [2 vezes], 23).
Os destinatários da carta são chamados de crentes "em nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor da glória" (2.1). A pessoa que é materialmente pobre é espiritualmente rica de fé (2.5) e herdeira do reino de Deus.
Na parte que se refere à fé e às obras, Tiago afirma que "a fé por si só, se não for acompanhada de ação, é morta" (2.17,26), pois a fé que está morta não é fé. Assim, ele ilustra seu ensinamento com uma refe¬ência à narrativa histórica da oferta de Isaque no monte Moriá. Ele prova que as obras de Abraão são resultantes da fé ativa do patriarca.

4. A Lei
Para Tiago, a lei de Deus que dá liberdade ao crente (1.25; 2.12), é resumida como "a lei régia" ("amarás o teu próximo como a ti mesmo", 2.8) e deve ser obedecida (4.11). Peter H. Davids conclui que "em cada uma dessas passagens, a validade da lei não é discutida, mas simplesmente pressuposta".
Há paralelos reconhecíveis entre a Epístola de Tiago e os ensinamentos de Jesus acerca da lei. Tiago declara que a pessoa que faz o que é pedido pela lei, ao observá-la atentamente, "será abençoado no que realiza" (1.25). Jesus observa que "nem todo o que me diz: 'Senhor! Senhor!' entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus" (Mt 7.21). A pessoa que coloca em prática as palavras de Jesus é sábia (Mt 7.25; e ver também Lc 6.47). Tiago retrata a segunda parte do resumo da lei - "Amarás o teu próximo como a ti mesmo" - como sendo régia (2.8). Ao ser perguntado por mestres da lei sobre qual é o maior mandamento da lei, Jesus ensina a forma resumida: '"Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento'. Este é o grande e primeiro mandamento. O segundo, semelhante a este, é: 'Amarás o teu próximo como a ti mesmo'" (Mt 22.37-39).
Tiago instrui seus leitores a não criticar ou julgar um irmão, pois isso é o mesmo que criticar e julgar a lei: "Quando vocês julgam a lei, não a estão observando, mas sim servindo de juizes dela" (4.11). Essas palavras são um eco e uma forma expandida daquelas que foram proferidas por Jesus: "Não julgueis, para que não sejais julgados. Pois com o critério que julgardes, sereis julgados" (Mt 7.1,2).
No tocante à lei, a Epístola de Tiago está repleta do Espírito de Cristo. É verdade que Tiago não apresenta uma doutrina plenamente desenvolvida da lei e da salvação, mas o ensinamento de que Deus "dá graça aos humildes" (4.6). Fica a cargo de Paulo apresentar à igreja a doutrina da justificação pela fé, e não pelas obras.

5. Fé e obras
Uma comparação entre Romanos 4 e Tiago 2 revela uma aparente semelhança na escolha das palavras fé e obras e na citação de Génesis 15.6: "Abraão creu em Deus, e isto lhe foi imputado para justiça" (Rm 4.3; Tg 2.23). Qual é a relação entre a apresentação de Paulo da fé e das obras em Romanos e a de Tiago em sua epístola?
Alguns comentaristas afirmam que Tiago escreveu sua epístola para criticar os ensinamentos de Paulo sobre fé e obras. Dizem que Paulo foi mal-entendido pela igreja, pois separou os conceitos de fé e de obras. Tiago via um perigo nos ensinamentos apresentados por Paulo, a saber, da fé sem obras. Assim, pelo fato de alguns cristãos terem interpretado incorretamente a frase “sem obras”, Tiago escreveu sua carta para reforçar o ensinamento de que a fé resulta em obras.
Na opinião de outros estudiosos, Tiago escreveu sua epístola antes de Paulo começar sua carreira como escritor, ou seja, depois que a Epístola de Tiago começou a circular na igreja primitiva, Paulo escreveu sua carta aos romanos para apresentar uma melhor compreensão do significado da fé sem obras.
Tanto Tiago quanto Paulo desenvolvem o tópico de fé e de obras, cada um de sua própria perspectiva e cada um com seu propósito.
Tiago usa a palavra fé de modo subjetivo, no sentido de confiança e segurança no Senhor. Essa fé ativa dá ao crente perseverança, certeza e salvação (1.3; 2.14; 5.15). A fé é o envolvimento ativo do crente com a igreja e o mundo. Pela fé, ele recebe sabedoria (1.5), justiça (2.23) e cura (5.15).
Paulo, por outro lado, com frequência, fala da fé de modo objetivo. Fé é o instrumento pelo qual o crente é justificado diante de Deus (Rm 3.25,28,30; 5. 1; Gl 2.16; Fp 3.9). A fé é o meio pelo qual o crente se apropria dos méritos de Cristo. Por causa desses méritos, o homem é justificado diante de Deus. A justificação, portanto, vem como uma dádiva de Deus para o homem - um dom que ele toma para si pela fé. A justificação é a declaração de Deus de que ele restaurou o crente pela fé, colocando-o num relacionamento correto consigo mesmo.
Em sua discussão sobre fé e obras, Tiago parece escrever de maneira independente da carta de Paulo aos romanos. Tiago aborda o assunto de um ponto de vista mais prático do que teológico. Com efeito, sua abordagem é simples, direta e consequente.
A discussão de Paulo representa um estágio avançado do ensinamento que relaciona a fé com as obras. Pelo fato da abordagem de Tiago diferir bastante da de Paulo, concluímos que ele escreveu sua epístola independente do ensinamento de Paulo e, talvez, até antes da redação de Romanos.

6. Provações e submissão
Dois tópicos tratados tanto por Pedro quanto por Tiago são as provações e a submissão. As semelhanças geram algumas perguntas. Será que Pedro baseou-se na Epístola de Tiago para escrever sobre isso em sua própria epístola? Será que Tiago lançou mão de 1 Pedro? Ou teriam ambos os autores tirado seu material de uma fonte em comum?
Antes de procurarmos responder a essas perguntas, devemos levar em consideração pelo menos três fatos. Primeiro, com respeito às semelhanças e paralelismos, a Epístola de Tiago é breve e a de 1 Pedro é mais elaborada. A regra hermenêutica "o texto mais curto é provavelmente o mais próximo do original" tem seu mérito, pois um autor que toma seu material emprestado de outro tem a tendência a estender sua apresentação. Além disso, Tiago escreve sua carta, exclusivamente, para leitores judeus cristãos; Pedro escreve para gentios cristãos (ver IPe 1.18; 2.10,12; 4.3). E, finalmente, Tiago e Pedro compartilham de uma herança cultural, um treinamento e um propósito comuns. Sem dúvida, sua íntima comunhão em Jerusalém contribuiu para a interdependência na escrita de suas respectivas epístolas.
Há muitas semelhanças entre a Epístola de Tiago e a Primeira Epístola de Pedro. Ambos os autores mencionam e citam duas passagens idênticas do Antigo Testamento. A primeira é Isaías 40.6-8:

“Toda a carne é erva, e toda a sua glória como flor da erva. Seca-se a erva, e caem as flores, soprando nelas o hálito do Senhor... seca-se a erva e cai a sua flor, mas a palavra do nosso Deus permanece eternamente".

Tiago faz alusão a essa passagem (1.10,11) e Pedro cita partes dela com exatidão (1Pe 1.24). A segunda citação é de Provérbios 10.12: "O amor cobre todas as transgressões". Tanto Tiago quanto Pedro citam esse versículo (Tg 5.20; 1Pe 4.8).
Além disso, devemos observar alguns paralelos nas duas epístolas para ver como cada escritor desenvolve um determinado tópico. A partir dessa visão dos paralelos, podemos determinar quem faz um relato mais completo do tópico. Eis alguns versículos paralelos que ilustram os temas das provações e da submissão.

Tiago 1.2
"Considerem uma alegria absolu¬ta, meus irmãos, sempre que você enfrentarem tribulações de mui¬tos tipos".
1 Pedro 1.6
"Nisso exultais, embora, no pre¬sente, por breve tempo, se neces¬sário, sejais contristados por vári¬as provações".

Tiago indica que o homem que persevera debaixo de provações receberá a coroa da vida (1.12). Pedro exorta seus leitores a não se surpreenderem quando tiverem de suportar sofrimento doloroso (4.12) e para não se envergonharem quando sofrerem como cristãos (4.16).

Tiago 4.6,7,10
"É por isso que as Escrituras dizem: Deus se opõe ao soberbo, mas dá graça ao humilde. Submetam-se, portanto, a Deus... Humilhem-se diante do Senhor e ele os levantará".
1 Pedro 5.5,6
"Rogo igualmente aos jovens: sede submissos aos que são mais velhos... porque Deus resiste aos soberbos, contudo aos humildes concede a sua graça. Humilhai-vos, portanto, sob a poderosa mão de Deus, para que ele, em tempo oportuno, vos exalte".

Enquanto Tiago exorta dizendo: "Resistam ao diabo e ele fugirá de vocês" (4.7), Pedro expande sua exortação e sua descrição do diabo. Ele admoesta os leitores a serem "sóbrios e vigilantes". Explica sua admoestação dizendo: "O diabo, vosso adversário, anda em derredor como leão que ruge procurando alguém para devorar". E, finalmente, diz ao crente: "Resisti-lhe [ao diabo] firmes na fé" (IPe 5.8,9).
Esses dois exemplos ilustram o caráter conciso do estilo de Tiago e a forma expandida de Pedro. Apesar dessa observação ser, por si só, como um grão de areia no deserto, parece favorecer a teoria de que a Epístola de Tiago foi escrita antes da Primeira Epístola de Pedro. É mais provável que ela seja de uma data mais antiga, e não de um tempo mais recente.

Quando e Onde a Epístola Foi Escrita?
1. A Data
Tiago escreveu sua epístola depois de se tornar líder da igreja de Jerusalém, no ano de 44 d.C., e antes de morrer como mártir, em 62 d.C.
Os dois extremos no que diz respeito às datas usadas para determinar quando a Epístola de Tiago foi escrita podem ser verificados. Começaremos com a possível data mais antiga na qual a epístola poderia ter sido escrita. Os cristãos judeus que foram expulsos de Jerusalém por causa da perseguição resultante da morte de Estevão dis¬persaram-se (At 8.1). Eles "se espalharam até a Fenícia, Chipre e Antioquia" (At 11.19). Isso provavelmente ocorreu durante o início da quinta década. Também foi nesses anos que Tiago alcançou proeminência na igreja de Jerusalém. Quando Pedro foi libertado da prisão, em 44 d.C. (ano em que Herodes Agripa I faleceu [At 12.23]), Tiago tomou o lugar de Pedro como líder da igreja.
Em sua carta, Tiago se dirige "às doze tribos espalhadas entre as nações" (1.1). Ele cumpre seu papel de pastor até mesmo em relação a membros antigos que naquele momento estavam dispersos. Escreve sua carta para todos os cristãos na Dispersão pois, a seu ver, naquele período da história da igreja não havia cristãos gentios. A possível data mais recente para a redação da Epístola de Tiago é o ano 62 d.C., ano da morte de Tiago. Essa data pode ser verificada, pois Festo havia falecido e seu sucessor, Albino, estava a caminho da Judéia para assumir seu cargo de governador.
A epístola em si não tem nenhuma referência de tempo, ou de circunstâncias específicas que possa ajudar o leitor a determinar uma data. Se revisarmos o conteúdo da Epístola de Tiago e analisarmos as referências indiretas à cultura e às condições da época na qual o autor escreveu, seremos capazes de determinar a data aproximada em que a carta foi escrita.
Tiago não indica uma divisão entre cristãos judeus e judeus, o que é um tanto pronunciado nos evangelhos e nas epístolas. Mateus, por exemplo, registra as palavras de Jesus admoestando o crente a não ser como os hipócritas que "gostam de orar em pé nas sinagogas" (6.5). João, em seu evangelho, refere-se repetidamente à oposição como sendo "os judeus", mesmo que o próprio Jesus e seus discípulos fossem judeus. Paulo também enfrentou resistência organizada à mensagem de Cristo mais pelos judeus do que pelos gentios.
A Epístola de Tiago, porém, reflete um tempo de relativa tranquilidade dentro da comunidade judaica na quarta e quinta décadas do século I. Os destinatários da epístola frequentam cultos em sua sinagoga local (2.2; ver no grego). Certamente esses leitores estavam passando por dificuldades financeiras e perseguições de pessoas que estavam blasfemando o bom nome de Jesus (2.7). Eles eram oprimidos não por serem judeus, mas por serem pobres.
Enquanto Paulo e Pedro fazem em suas epístolas uma distinção entre cristãos judeus e cristãos gentios, Tiago se dirige apenas aos cristãos pertencentes às 12 tribos (1.1) e que chamavam Abraão de pai (2.21). Pelo fato de nada na Epístola de Tiago indicar a controvérsia entre judeus e gentios que levou à convocação da reunião geral dos apóstolos e presbíteros em Jerusalém (At 15), a carta provavelmente foi escrita antes dessa reunião do concílio. Os estudiosos acreditam que o concílio reuniu-se no ano de 49 d.C.
Além disso, a epístola reflete um tempo no qual a igreja parece estar em seus estágios iniciais de desenvolvimento. É verdade que o termo presbíteros aparece relacionado à cura dos enfermos (5.14), mas Tiago não observa, ou comenta, sobre o ministério de liderança e ensino dos presbíteros. Apesar de mencionar mestres quando fala do refrear da língua (3.1), ele não os associa ao ministério na igreja. Não faz alusão, ainda, ao ministério dos diáconos de cuidado dos pobres. Os sacramentos da Ceia do Senhor e do batismo não são discutidos. Apesar desse argumento ser resultante do silêncio, a reunião de evidências aponta para uma data na metade da quinta década. Podemos considerar, cautelosamente, que se trata de uma data que fica entre o momento em que Tiago sucedeu a Pedro como líder da igreja de Jerusalém e a reunião do concílio naquela mesma cidade.

2. O Lugar
O autor não oferece nenhuma informação sobre seu domicílio. Porém, refere-se a condições climáticas próprias de Israel. Seu comentário sobre como o lavrador aguarda com paciência as "primeiras e últimas chuvas" (5.7) encaixa-se com a região da Palestina. Países ao sul ou leste de Israel não têm esse ciclo repetitivo de chuvas de outono e primavera, que é típico de Israel. Tiago também observa o "ardente calor" (1.11) do sol que é prevalecente em sua terra natal e coloca o leitor a par dos frutos da terra: figos e azeitonas (3.12).

Qual é a História da Epístola?
Durante mais de um século e meio depois que foi escrita, a Epístola de Tiago não circulou e nem foi amplamente divulgada. Talvez por ter sido endereçada a um grupo limitado de cristãos judeus, a carta tenha continuado desconhecida na igreja cristã gentia. O fato de Tiago não ser um apóstolo resultou em negligência por parte da igreja com respeito à sua carta. A igreja aplicou a regra de que se um livro não era apostólico não podia ser canônico.
O Cânon Muratoriano, que é supostamente do ano 175 d.C., não inclui a Epístola de Tiago. Escritores do século II fazem alusões vagas a essa carta. Diz-se que Clemente de Alexandria fez um comentário sobre a epístola por volta de 220 d.C., mesmo não havendo quaisquer citações dessa obra naquilo que restou de seus escritos. Orígenes cita a Epístola de Tiago em seu comentário do Evangelho de João (Jo 19.6). Ele se refere à epístola como sendo Escritura e menciona o nome de Tiago.
Cem anos depois, o historiador Eusébio relata que a Epístola de Tiago era usada publicamente nas igrejas. Naquela época, alguns a consideravam um documento espúrio, e o próprio historiador a coloca na lista dos livros controversos. Ainda assim, Eusébio se refere a essa epístola como sendo parte das Escrituras, atribuindo-a ao "santo apóstolo", o qual ele chama repetidamente de irmão do Senhor. Depois de descrever o martírio de Tiago, ele diz:

“Essa é a história de Tiago. Diz-se que sua [epístola] é a primeira das epístolas chamadas de católicas. Deve-se observar que sua autenticidade é negada, tendo em vista que poucos dos antigos a citam, como também é o caso da Epístola de Judas, que é, em si, uma das sete chamadas católicas; ainda assim, sabemos que essas cartas eram usadas publicamente junto com as outras na maioria das igrejas”.

O Concílio de Cartago, em 397 d.C., reconheceu oficialmente a Epístola de Tiago como sendo canônica. No ano de 412 d.C., a Igreja da Síria a inclui juntamente com 1 Pedro e 1 João na versão autorizada conhecida como Peshitta Siríaca. Exceto pela igreja síria, o Oriente passou a considerar a epístola como sendo canônica antes do Oci¬dente. Líderes influentes, incluindo Jerônimo, foram de grande importância para familiarizar a igreja do Ocidente com a Epístola de Tiago.
Durante a época da Reforma, Erasmo expressou dúvidas de que Tiago, irmão de Jesus, tivesse escrito a epístola. Para ele, por causa da descendência judia de Tiago, este não poderia ter escrito num grego de tão alto nível como o que aparece na epístola. Martinho Lutero também acrescentou suas reservas ao observar que a epístola pouco ensina a respeito de Cristo, não é apostólica, enfatiza a lei ao invés do evangelho e opõe-se à doutrina de fé e obras exposta por Paulo. Lutero escreve no prefácio de sua tradução do Novo Testamento (1522) que "a Epístola de Tiago é, na realidade, uma epístola de palha". Conclui ainda: "Não posso colocar [a epístola] entre os principais livros, apesar de que, dessa forma, não impediria ninguém de colocá-la onde lhe aprouvesse e estimá-la como lhe aprouvesse, pois há [nela] muitos bons ditados". Em sua obra, Lutero cita a epístola com frequência sem qualquer comentário crítico. Ele a considera Palavra de Deus. Apesar de ter numerado os livros do Novo Testamento, ele não colo¬cou número em Tiago (e nem em 2 Pedro, Judas e Apocalipse), deixando-os no final de sua lista do Novo Testamento.
Quando William Tyndale completou a tradução do Novo Testamento, em 1525, colocou a Epístola de Tiago como último livro do cânon. Traduções subsequentes do Novo Testamento para o inglês colocaram a epístola no lugar habitual, depois de Hebreus e antes de 1 Pedro.

Como Traçar um Esboço de Tiago?
Há muitos e variados esboços da Epístola de Tiago. A epístola, porém, apresenta diversos temas que estão entretecidos e que, com frequência, se repetem. Por essa razão, os comentaristas diferem entre si na divisão exata do texto. Segui a divisão de capítulos e sugiro os seguintes títulos para os cinco capítulos de Tiago:
1.1-27 Perseverança
2.1-26 Fé
3.1-18 Controle
4.1-17 Submissão
5.1-20 Paciência

Eis um esboço mais detalhado:
1.1-27 Perseverança
A. Saudações 1.1
B. Provações 1.2-11
1. Provação da fé 2-4
2. Pedindo sabedoria 5-8
3. Orgulhando-se 9-11
C. Testes 1.12-18
1. Suportando a provação 12
2. Sendo tentado a cobiçar 13-15
3. Recebendo os dons perfeitos 16-18
D. Acordos 1.19-27
1. Aceitando a Palavra de Deus 19-21
2. Ouvindo com obediência 22-25
3. Servindo religiosamente 26,27

2.1-26 Fé
A. A Fé e a Lei 2.1-13
1. Evitem o favoritismo 1-4
2. Sejam ricos em fé 5-7
3. Obedeçam à lei régia 8-11
4. Mostrem misericórdia 12,13
B. Fé e Obras 2.14-26
1. Fé sem obras 14-17
2. Fé, obras e credo 18,19
3. A fé de Abraão 20-24
4. Fé e justificação 25,26

3.1-18 Controle
A. Uso da Língua 3.1-12
1. A disciplina da fala 1,2
2. Exemplos 3-8
3. Louvor e maledicência 9-12
B. Dois Tipos de Sabedoria 3.13-18
1. Sabedoria terrena 13-16
2. Sabedoria celestial 17,18

4.1-17 Submissão
A. Submissão de Vida e Espírito 4.1-12
1. Questionando com a motivação errada 1-3
2. Tendo amizade com o mundo 4-6
3. Aproximando-se de Deus 7-10
4. Julgando um irmão 11,12
B. Submissão à Vontade de Deus 4.13-17
1. Exemplo 13-15
2.Bem e mal 16,17

5.1-20 Paciência
A. Impaciência com os Ricos 5.1-6
1. A quem se refere 1
2. Riqueza 2,3
3. Roubo 4
4. Viver em prazeres 5
5. Homicídio 6
B. Necessidade de Paciência 5.7-11
1. Súplica por paciência 7,8
2. Advertência contra a impaciência 9
3. Exemplos 10,11
C. Juramentos 5.12
D. Persistência na Oração 5.13-18
1. Oração e louvor 13
2. Oração e fé 14,15
3. O poder da oração 16
4. Exemplo 17,18
E. Salvando o Desviado 5.19,20

Um comentário:

JoilsonMoreira disse...

Olá Pastor,
Gostei muito do seu comentário e estamos utilizando, é claro citando a fonte, pois estamos estudando a espístola de Tiago. muito bom o texto...
Abraços Fraternais..
da Igreja Presbiteriana Primeiro de Maio
Senhor do Bonfim/BA

Joilson AMorim Moreira