segunda-feira, 14 de abril de 2008

Carta de JUDAS


Essa breve epístola não se perdeu nos primeiros séculos da era cristã, mas foi providencialmente preservada. Teve ampla circulação na igreja, e, apesar de alguns líderes expressarem suas reservas, a carta foi aceita como Palavra de Deus. Mesmo que a carta não tenha sido escrita por um apóstolo, a igreja deu à epístola de Judas a canonicidade. Na última década do século IV, concílios da igreja reconheceram plenamente sua condição, como, por exemplo, o Concilio de Cartago, em 397 d.C.
Judas não endereçou sua carta a uma igreja específica, portanto, em certo sentido, ele fala à igreja universal. Aos destinatários, ele se identifica como o "irmão de Jesus".

A. Autoria
O autor, que se autodenomina "servo de Jesus Cristo e irmão de Tiago", não diz aos leitores que é irmão do Senhor (ver Mt 13.55; Mc 6.3). Ele evita se chamar de irmão de Jesus. Ao usar o nome duplo Jesus Cristo, ele enfatiza não seu relacionamento físico, mas espiritual, com ele. Assim como Tiago (ver 1.1), ele é servo de Jesus Cristo; e é irmão de Tiago, o conhecido líder da igreja-mãe em Jerusalém. Sabemos, através do livro de Atos e da epístola de Tiago, que Tiago trabalhou fielmente como servo do Senhor. Exceto pela epístola de Judas, não temos mais nenhuma informação sobre seu autor. Sua auto-designação o coloca à luz de seu irmão Tiago. Essa identificação, sem dúvida, foi um dos fatores decisivos na aceitação que a epístola teve na igreja primitiva como livro canônico.
De acordo com a lista dos 12 discípulos (Lc 6.16; At 1.13), Judas, filho de Tiago, é um apóstolo. Exceto pelo registro de uma pergunta que Judas fez no cenáculo (Jo 14.22), o Novo Testamento nada diz sobre essa determinada pessoa, que também é conhecida como Tadeu. Se essa pessoa tivesse escrito a carta, seria de se esperar que se identificasse como um apóstolo de Jesus Cristo. A exortação do autor: "Caros amigos, lembrem-se do que os apóstolos de nosso Senhor Jesus Cristo profetizaram" (v. 17) também prova que ele não se considerava parte do círculo dos 12 apóstolos. O apóstolo Judas teria sido mais pessoal se tivesse escrito a carta.
Mesmo sendo Judas, o apóstolo, filho de Tiago, ele não é irmão de Tiago e de Jesus. Todas as outras pessoas com o nome de Judas no Novo Testamento não se qualificam como possíveis autores dessa epístola. Supomos que Judas, irmão de Tiago, era um pregador itinerante (1Co 9.5) que escreveu a carta para advertir os cristãos sobre os ensinamentos insidiosos dos hereges.

B. Características
Assim como Tiago, Judas foi criado na Galiléia, onde aprendeu a falar não apenas o aramaico, mas também o grego, que era a língua universal da época. Temos bons motivos para crer que ele próprio escreveu a carta, mesmo que tenha sido ajudado por um escriba. As Escrituras nos informam que a Galiléia era conhecida como Galiléia dos Gentios (Is 9. 1; Mt 4.15), onde a cultura e a língua grega haviam influenciado fortemente a população.

Quais são as características literárias da epístola de Judas?
Judas escreve a epístola num grego aceitável, que é simples e vigoroso. Sua carta "não é obra de um artista literário, mas de um dedicado profeta cristão".
Ele se baseia nos escritos do Antigo Testamento e admoesta os leitores. Enumerando três incidentes da história bíblica, ele chama a atenção para os israelitas incrédulos no deserto (v.5), para os anjos rebeldes (v.6) e para os habitantes imorais de Sodoma e Gomorra (v.7). Em uma outra relação de acontecimentos históricos, Judas faz referência ao estilo de vida de Caim, ao erro de Balaão e à rebelião de Coré (v.11).
Judas faz alusões e cita a literatura apócrifa. Ele menciona a luta entre o arcanjo Miguel e Satanás (v 9; ver também a Assunção de Moisés) e cita parte da profecia de "Enoque, o sétimo depois de Adão" (vs.14,15; consultar também 1 Enoque).
Ao longo de sua epístola, Judas tem uma forma peculiar de organizar seu material, criando um padrão constante com três elementos. Eis alguns exemplos: os destinatários são chamados, amados e guardados (v.1); na saudação, Judas enumera misericórdia, paz e amor (v.2); os apóstatas imorais "contaminam seus próprios corpos, rejeitam autoridades e maldizem seres celestes" (v.8); os murmuradores e descontentes "[andam] segundo suas paixões. A sua boca vive propagando grandes arrogâncias. São aduladores dos outros, por motivos interesseiros" (v.16); "São estes os que promovem divisões, sen¬uais, que não têm o Espírito" (v.19); e a doxologia cita três períodos: antes de todas as eras, agora e por todos os séculos (v.25).
A carta de Judas é extremamente parecida com a segunda epístola de Pedro. Apesar do paralelismo ser evidente, especialmente no segundo capítulo de 2 Pedro, uma leitura mais atenciosa revela que nenhum dos dois autores copiou exatamente o material do outro. Esta é uma lista das passagens (a lista de tópicos segue a redação da epístola de Judas):


Judas 4 homens ímpios que negam o Soberano Senhor 2 Pedro 2.l
6 anjos guardados sob trevas para o juízo 2.4
7 Sodoma e Gomorra reduzidas a cinzas 2.6
8 homens que difamam autoridades superiores 2.10
9 Miguel não proferiu juízo inf amatório 2.11
10 esses blasfemadores são como brutos sem razão 2.12
11 prosseguiram pelo caminho de Balaão 2.15
12 nuvens sem água impelidas pelo vento 2.17
13 para eles tem sido guardada a negridão das trevas 2.17
16 são lascivos, arrogantes e aduladores 2.18
17 palavras proferidas anteriormente pelos apóstolos 3.2
18 no último tempo haverá escarnecedores 3.3

C. Propósito
Por que Judas escreveu sua epístola?
Ele informa aos seus leitores que ansiava por escrever-lhes sobre a salvação que têm em comum. Em vez disso, ele os instrui sobre o conjunto de doutrinas cristãs, o qual ele chama de fé. Insta os crentes a batalharem "pela fé que de uma vez por todas foi confiada aos santos" (v.3). Perto do final de sua epístola, ele encoraja os destinatários a se edificarem na "fé santíssima", e exorta os leitores de sua epístola a mostrarem misericórdia para com aqueles que estão na dúvida (v. 22).
O propósito de Judas parece ser polémico. Na maior parte de sua epístola (vs. 4 a 19), ele ensina os crentes a se oporem aos apóstatas que se infiltraram na comunidade. Adverte-os sobre a influência perniciosa desses homens ímpios e inculca-lhes algumas verdades fundamentais. Mesmo que brevemente, menciona várias doutrinas cristãs. São elas: a eleição daqueles que foram chamados (v. 1); a perseverança daqueles que lutam pela fé (vs. 3,21); o juízo final dos incrédulos (vs. 4,6,7,11,15) e a segurança (vs. 1,21,24), salvação (v. 3) e vida eterna (v. 21) dos crentes.

D. Apóstatas
Quem eram esses hereges? Judas os caracteriza de várias ma¬neiras: "introduziram-se secretamente" no meio dos crentes (v. 4a); são "homens ímpios" (vs. 4b,14,15,18); aceitaram a graça de Deus, mas transformaram-na em libertinagem (v. 4c); negam a Jesus Cristo como seu único Soberano e Senhor (v. 4d).
Além disso, Judas descreve a vida moral, ética e espiritual desses indivíduos. Ele os retrata como pessoas que poluem seu próprio corpo, que não reconhecem autoridades superiores e que têm a audácia de difamar seres angelicais (v. 8). Reduziram-se ao nível de animais, que vivem por instinto. Apesar dos animais conhecerem seus limites, essas pessoas, quando vivem por instinto, destroem-se a si mesmas (v. 10).
Em sua vida social, os apóstatas tornaram-se nódoas nas festas de fraternidade dos cristãos, pois comem até saciar-se e fazem-no sem escrúpulos (v. 12). São pessoas descontentes, que murmuram e procuram defeitos, buscam o prazer físico, falam arrogantemente de si mesmas e têm motivos interesseiros (v. 16). Esses homens têm o propósito definido de dividir a igreja e não têm o Espírito (v. 19).
Fazendo uma paráfrase: os apóstatas estão na igreja, mas não são da igreja. Na verdade, repudiaram o Deus Triúno. Aceitam a graça e salvação de Deus, mas pensam que isso lhes dá o direito de pecar irrestritamente (v. 4c). Afirmam ser seguidores de Cristo, mas ao mesmo tempo o negam e escarnecem de sua volta (vs. 4d,18). Pensam que têm o Espírito, mas sua conduta vergonhosa mostra que, na realidade, vivem por instintos naturais (v. 19).
Esses homens, porém, não devem ser identificados com os mestres gnósticos do século II. O intervalo de tempo entre a redação da epístola de Judas e os gnósticos do século II é muito grande. Além disso, não devemos entender algumas declarações gerais de Judas sobre ensinamentos heréticos como se fizessem referência ao Gnosticismo plenamente desenvolvido. Em resumo, não sabemos nada sobre esses hereges além daquilo que Judas revela em sua epístola. O máximo que podemos dizer é que foram antecessores de outros hereges que perturbaram a igreja.
Por causa da semelhança entre 2 Pedro e Judas, existe a tentação real de identificar os apóstatas mencionados na epístola de Judas com aqueles descritos em 2 Pedro. Porém, Judas nunca usa os termos empregados por Pedro para descrever os hereges. Pedro os chama de "falsos mestres", mas Judas se refere a eles como "homens ímpios". Pedro enfatiza o conceito de ensinar (2Pe 2.1-3), mas Judas destaca as palavras e atos ímpios desses homens perversos (vs. 4,14-16,19). Além do mais, Pedro indica que haverá falsos mes¬tres entre os membros da igreja (2Pe 2.1). Ele revela que esses mestres são pessoas locais. Judas, pelo contrário, informa aos seus leitores que os homens ímpios "introduziram-se secretamente" no meio dos crentes (v. 4). Eles vieram de fora da comunidade. Concluímos que Pedro e Judas retratam seus adversários de modo diferente. Assim, devemos ter o cuidado de não identificar os dois grupos. Se o fizéssemos, teríamos que supor que Pedro e Judas dirigem-se aos mesmos leitores.

E. Destinatários
Quem são os primeiros leitores da epístola de Judas? Francamente, não sabemos onde moravam, pois o envelope com o endereço se perdeu, por assim dizer. Ao examinar o conteúdo da carta, podemos fazer algumas observações sobre esses leitores.
Os destinatários da epístola tinham bom nível de conhecimento das Escrituras do Antigo Testamento, pois o autor os elogia por saberem fatos relacionados ao êxodo (v. 5), a anjos (v. 6) e a Sodoma e Gomorra (v. 7). Conhecem o nome de Caim, Balaão e Coré (v. 11) e estão familiarizados com a literatura judaica do século I (vs. 9,14). Supomos, portanto, que os destinatários são judeus convertidos à fé cristã.
A carta de Judas não contém referências explícitas, nem implícitas sobre o público gentio. O conteúdo dessa epístola é tal que apenas judeus poderiam entender completamente o sentido dos escritos de Judas. Porém, devemos considerar a carta do ponto de vista do autor: Judas escreveu como judeu e, assim, refletiu sua própria origem judaica. Talvez façamos bem em dizer que Judas se dirigiu a cristãos judeus vivendo na Dispersão em qualquer um dos grandes centros judaicos do Oriente Médio.
Tendo em vista o conteúdo das duas epístolas de Pedro, podemos concluir que essas cartas foram endereçadas a cristãos judeus e gentios vivendo na Ásia Menor (1Pé 1.1). A partir do conteúdo da epístola de Judas, porém, não somos capazes de determinar o seu lugar de destino.

F. Data e Local
O conteúdo da epístola de Judas não oferece nenhuma indicação de quando Judas escreveu esse documento. Se partirmos do pressuposto de que Judas é um dos filhos mais jovens de José e Maria (Mt 13.55; Mc 6.3), então não estaríamos equivocados em determinar os últimos vinte e cinco anos do século I como período provável.
A questão de determinar a data de Judas não depende tanto da idade do autor (João, por exemplo, escreveu sua carta quando já era de idade avançada), quanto da sequência de 2 Pedro e Judas. Os estudiosos que acreditam que Judas se baseou no texto da segunda epístola de Pedro datam a composição pelo menos uma década depois da morte de Pedro. Entendem que a frase "Caros amigos, lembrem-se do que os apóstolos de nosso Senhor Jesus Cristo profetizaram" (v. 17) se refere aos apóstolos que já haviam falecido, mas esse texto não prova conclusivamente que a era apostólica havia terminado. A ênfase do versículo 17 não é sobre o tempo de vida dos apóstolos, mas sobre a necessidade de se lembrar de seus ensinamentos.
Outros estudiosos declaram que Pedro se baseou na epístola de Judas para escrever sua segunda carta. Tendo como base um estudo detalhado das passagens paralelas, apresentam argumentos convincentes para a sequência que coloca Judas antes de 2 Pedro (consultar a Introdução a 2 Pedro para mais detalhes). Se Judas escreveu primeiro uma carta que depois tornou-se fonte para 2 Pedro, a data da epístola de Judas deve ser, necessariamente, anterior.
Uma terceira possibilidade é que tanto Pedro quanto Judas tenham tomado emprestado material de uma fonte em comum. Apesar de ser apenas uma hipótese, o fato é que essa opção também pede que se determine uma data antiga para ambas as epístolas. Proponentes dessas duas últimas possibilidades, portanto, argumentam em favor de uma data na metade da década de 60.
A epístola não dá nenhuma indicação de onde Judas redigiu sua carta. Supomos que, como pregador itinerante, ele tenha visitado cristãos especialmente nas comunidades judaicas, mas não podemos dizer nada sobre um provável lugar de origem dessa epístola.

G. Canonicidade
Quais são as evidências de que a igreja primitiva aceitou a epísto¬la de Judas como sendo canônica? Considerando a brevidade desse documento, nos surpreendemos ao encontrar alusões às palavras de Judas. Sabemos que essas evidências são pequenas, mas, quando consideradas em conjunto, apontam para a mesma direção, a saber, o uso geral dessa epístola. Vários documentos do final do século I e começo do II apresentam referências indiretas. O primeiro documento a se referir à epístola de Judas pelo nome é o Cânon Muratoriano (175 d.C.): "além disso, uma epístola de Judas e duas com o título de João são aceitas pela igreja católica".
No início do século III, Clemente de Alexandria (200 d.C.) cita a epístola de Judas algumas vezes e menciona Judas pelo nome. O escritor norte-africano Tertuliano (200 d.C.) observa: "Enoque tem um testemunho no Apóstolo Judas". E seu contemporâneo, Orígenes, cita repetidamente a epístola de Judas. Ele chama Judas de apóstolo e se refere à carta como sendo Escritura. Um século mais tarde (300 d.C.), Eusébio compõe sua História Eclesiástica e resume os escritos do Novo Testamento. Diz:

“Dos livros controversos que ainda assim são conhecidos pela maioria, encontra-se a epístola chamada de Tiago, aquela de Judas, a segunda epístola de Pedro e as chamadas segunda e terceira epístolas de João, que podem ser obra do evangelista ou de alguém com o mesmo nome.”

Perto do final do século IV, Jerônimo apresenta a razão para se colocar Judas entre os livros controversos. Apesar dele próprio colocar a carta entre as epístolas do Novo Testamento e considerá-la Escritura, Jerônimo revela que muitas pessoas rejeitam a carta por causa da citação de 1 Enoque e da alusão à assunção de Moisés. Ainda assim, tanto a igreja como um todo como a igreja em seus concílios gerais (na segunda metade do século IV) reconheceram a canonicidade da epístola de Judas.
No prefácio de sua edição do Novo Testamento de 1522, Martinho Lutero lista todos os 27 livros pelo nome. Aos 23 primeiros ele confere números sequenciais, mas deixa os últimos 4 sem números. São eles: Hebreus, Tiago, Judas e Apocalipse. Lutero afirma que a epístola de Judas é um sumário de 2 Pedro, e, portanto, desnecessária entre as epístolas do Novo Testamento. É evidente que Lutero não se impressionava com a carta, mesmo tendo-a deixado no cânon. Seu companheiro reformador, João Calvino, aceitava Judas, pois a igreja primitiva o colocava entre os livros canônicos do Novo Testamento. Ele escreve:
“Apesar de ter havido uma controvérsia entre os antigos so¬bre a epístola, tendo em vista que a leitura da mesma é proveitosa e como ela não contém nada incoerente com a pureza da doutrina apostólica, uma vez que foi recebida como autêntica no passado, por alguns dos melhores, estou disposto a acrescentá-la às outras.”
Eis uma pergunta válida: "Em que a epístola de Judas contribui para a totalidade da revelação escrita de Deus?" Como já vimos, os paralelos em 2 Pedro apresentam de maneira adequada a mensagem de Judas. Ainda assim, a abertura, saudação, exortações aos leitores ao longo de toda a carta e a maravilhosa doxologia na conclusão não aparecem em outras partes do Novo Testamento. Por esta razão, a igreja incluiu a epístola de Judas. Acima de tudo, porém, confessamos humildemente que Deus determina o conteúdo do cânon, pois ele pró¬prio o autorizou. O cânon é a Palavra de Deus.

H. Esboço de Judas

I. 1,2 Saudações
II. 3,4 Propósito da Carta
III. 5-7 Exemplos da História
A. 5 Israel Incrédulo
B. 6 Anjos Perversos
C. 7 Sodoma e Gomorra
IV. 8-11 Aplicação e Exemplos
A. 8 Homens ímpios
B. 9,10 Miguel e Satanás
C. 11 Caim, Balaão e Coré
V. 12-16 Descrições
A. 12,13 Contemporâneos
B. 14,15 Santos e Pecadores
C. 16 Murmuradores
VI. 17-23 Exortações aos Crentes
A. 17,18 Lembrem-se do Evangelho
B. 19 Evitem as Heresias
C. 20,21 Perseverem e Orem
D. 22,23 Mostrem Misericórdia
VII. 24,25 Doxologia.

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